Integridade em Momento de Pandemia




Em tempos de pandemia, faz-se necessário redobrar os cuidados em relação à integridade, seja a integridade pública ou a integridade corporativa. Com tantas mudanças ocorrendo e a necessidade de rápida adaptação, é necessário ter em mente que a atipicidade deste período não pode se tornar justificativa para quaisquer desvios.

 

No setor público, existe grande risco de que as compras e contratações emergenciais possam gerar oportunidades para desvios de recursos públicos e outros atos de corrupção. O Ranking de Transparência no Combate à Covid-19, instituído pela ONG Transparência Internacional, avalia os níveis de transparência das contratações emergenciais para enfrentamento da pandemia nos 26 estados brasileiros e suas capitais, além do Distrito Federal.

 

Na primeira avaliação do Ranking, em maio/2020, apenas 48% das unidades federativas receberam avaliação boa ou ótima, enquanto, entre as capitais, esse percentual foi de apenas 19%. Na segunda avaliação, em junho/2020, constatou-se grande melhora, possivelmente devido à pressão da sociedade: 93% das unidades federativas receberam avaliação boa ou ótima, enquanto nas capitais esse percentual foi de 73%. Confira o ranking completo e a metodologia de pesquisa no site da Transparência Internacional.

 

No ambiente corporativo, a situação sem precedentes que vivenciamos também causa preocupações adicionais no campo da integridade, tais como:

 

·         Relacionamento com o setor público: as políticas e procedimentos a respeito da forma de comunicação com o setor público, com o intuito de prevenção à corrupção, podem se tornar impraticáveis no período de isolamento social, o que pode gerar dúvidas nos funcionários, ou pior, servir como pretexto para desvios de conduta.

·         Riscos de tecnologia da informação: a implantação de novas ferramentas tecnológicas para trabalho remoto, de forma emergencial, sem tempo para um planejamento adequado, pode representar um risco para a segurança dos dados e informações e para a continuidade dos trabalhos;

·         Comportamento dos colaboradores: o distanciamento pode criar um ambiente propício para o surgimento ou intensificação de comportamentos indesejados, seja na execução das atividades ou no relacionamento com os colegas;

·         Descumprimento de procedimentos: a mudança de rotina pode levar os colaboradores a uma falsa impressão de que não é mais necessário seguir os procedimentos até então existentes;

·         Situações imprevistas: certamente surgirão situações imprevistas para as quais a empresa não tenha uma política ou um procedimento preestabelecido, gerando dúvidas e oportunidades para condutas indesejadas.

 

Para prevenir os diversos tipos de desvios que possam surgir durante esse período, é recomendável a adoção das diversas medidas, com destaque para:

 

·         Fortalecer a comunicação de assuntos de integridade e ética a todos os colaboradores a fim de manter o engajamento e prevenir comportamentos inadequados;

·         Manter em funcionamento um canal que possibilite o recebimento de manifestações dos usuários internos e externos acerca de qualquer desvio.

·         Atualizar o mapeamento de riscos, com a identificação de novos riscos, reavaliação daqueles preexistentes e revisão das medidas implementadas para mitigação;

·         Revisar e atualizar políticas e procedimentos que tenham perdido a efetividade, buscando readequá-las à nova realidade, preservando seus objetivos essenciais;

 

Não obstante a imprescindibilidade da revisão de riscos e das políticas e procedimentos, é importante considerar que as mudanças ocorrem com muita rapidez e que essa revisão requer considerável tempo e dedicação integrada de toda a empresa. Portanto, é de vital importância construir no ambiente corporativo um amplo entendimento do objetivo de cada política e procedimento que compõem o Programa de Integridade, a fim de que, em situações atípicas, ainda que a norma não possa ser aplicada na forma prevista, seja aplicada em sua essência, cumprindo seu objetivo principal. Da mesma forma, o gerenciamento de riscos deve consistir na prática cotidiana de reflexão sobre os riscos envolvidos em cada situação, sem se restringir aos eventos já mapeados.

 

Este período serve para demonstrar às organizações e à sociedade a importância da construção de uma cultura organizacional de integridade, que transcenda o mero cumprimento de leis, normas e procedimentos para focar no fim ao invés dos meios, e que tenha a comunicação como instrumento chave, seja na sua forma ativa, por meio da ação educativa e informativa, seja em sua forma passiva, por meio do acolhimento e tratamento de manifestações.


07/07/2020